Sotaques e preconceito linguístico

Os sotaques sempre foram divididos em valorizados e não valorizados. Sejam os regionais, dos falantes de uma mesma língua, mas moradores de partes diferentes da nação. Sejam os “gringos”, de pessoas que falam uma língua estrangeira ou uma segunda língua.

O sotaque do interior paulista é tratado como sotaque de caipira e menosprezado, enquanto o sotaque carioca já foi até considerado o oficial do português do Brasil. Essas divisões causam não só ridicularização, como também perpetuam ideias de hierarquias sociais. É claro que a valorização de um sotaque está diretamente ligada com o poder social, ou até econômico, de seu falante.

Vemos isso não só na diferenciação entre o sotaque carioca e o da zona rural, mas também quando um estrangeiro fala uma língua. Um brasileiro, ou indiano, falando inglês não tem a mesma recepção que um francês ou alemão. E isso fica ainda mais forte quando esse falante não tem a língua como língua estrangeira, mas sim como segunda língua.

O espaço da sala de aula sempre vai ser heterogênio, assim como sempre vai ser hostil. A diversidade é sempre acompanhada do estranhamento. Por tanto, cabe ao professor mediar e erradicar esse tipo de preconceito nas aulas de língua. Na aula de língua materna é preciso reconhecer todas as variedades da mesma, tornando-as válidas. Na aula de língua estrangeira é preciso fazer o mesmo e deixar claro que nenhuma língua é totalmente pura, em todas há diversidade. No caso de alunos bilíngues a questão pode ser tratada na própria aula de língua materna, mostrando que o bilinguismo existe e é um fenômeno que deve ser reconhecido e valorizado, não encarado como poluição da língua. Dessa forma, o preconceito linguístico é desconstruído e junto com ele preconceitos sociais e a xenofobia também.

Mais do que ensinar a língua, cabe ao professor reconhecê-la e tratá-la como detentora de diversidades.

 

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A diversidade dentro da sala de aula

A Gramática Prescritiva da Língua Portuguesa nada mais é que uma receita para fazer “bom uso” do português. Ensinar a língua materna a partir dessa perspectiva é abandonar as variações (sejam elas temporais ou regionais) do idioma. O mesmo se aplica ao ensino de Língua Estrangeira, pois é preciso expor e valorizar todas as formas em que a língua aparece, deixando de focar somente nas valorizadas.

Mas não é só a variação da língua que deve ser levada em conta na hora de ensinar, a heterogeneidade do alunado também é de grande influência. A diversidade aparecer tanto no contexto (social, econômico e cultural) dos alunos, como nos níveis de aprendizado em que eles estão.

Reconhecer a diversidade dentro da sala de aula é o primeiro passo para construir uma pedagogia eficaz. Primeiro, porque a partir de um diagnóstico sobre os níveis de proficiência dos alunos é possível criar um ponto de partida que contemple a todos, equilibrando o ambiente de ensino, sem deixar ninguém para trás e nem “atrasar” os que já estão em níveis mais avançados. Segundo, porque a cultura do aluno pode ser de grande auxílio, pois, a partir dela, é possível conhecer mais sobre o contexto do aluno e seus gostos. Isso pode ser útil na hora de usar uma abordagem mais pessoal no ensino, para lidar melhor com dificuldades particulares.

Não há um método de ensino de línguas totalmente eficaz, como expõe Micolli (2013), por isso, é papel do professor adaptar os métodos existentes ao seu público alvo e à sua ideia do que deve ser ensinado. É claro que essa não é uma tarefa fácil, pois há todo um sistema educacional ao qual estão todos acostumados. Mas é clara a necessidade de explorar novas abordagens e perspectivas, para se obter um ensino mais democrático e eficaz.

Suzy Rocha